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Mangualde tem bombeiros quase desde o início do século XX. Não teve efectivamente uma corporação devidamente organizada, mas o espírito do voluntariado nascera já com algumas pessoas, que se dispunham a servir e a acudir aos outros em caso de incêndio. Os Bombeiros em Mangualde poderão ter nascido da determinação de um homem, António Alves Pereira, conhecido por “Maçareco”, proprietário de uma oficina de serralharia. Ele, com seus empregados e outros homens de boa vontade, estavam sempre disponíveis para acudir quando um incêndio se manifestava.

Em 1902, Alves Pereira constrói a primeira bomba manual, de fraco poder e que alimentava uma só agulheta, mas que relevantes serviços prestou no ataque a diversos incêndios. Algum tempo depois, fazia-se em Mangualde um peditório para aquisição de material para combate a fogos e, embora grande parte da população considerasse utópica a iniciativa, certo é que a maioria acolheu bem a ideia e foram reunidas algumas importâncias. Em 1909, António Alves Pereira construía à sua custa uma nova bomba manual, mais potente, a que já podiam ser adaptadas duas agulhetas. E os bombeiros de então continuavam a ser os homens do “Maçareco” e outros voluntariosos que iam aparecendo.

Em 1914, Pantaleão Ribeiro da Cunha Dias, alvitra a aquisição de uma nova bomba, ainda manual mas com um sistema mais moderno e de maior eficácia, oferecendo-se mesmo para custear a sua compra. Chegou mesmo a celebrar-se contrato com um construtor do Porto, mas o período conturbado que então se vivia no Mundo, a I Grande Guerra, fez com que tudo se esquecesse e o contrato nunca foi cumprido. Só em 1920 foi possível adquirir a desejada bomba, com a principal ajuda de Pantaleão Dias e com os fundos que uma Comissão conseguiu. Essa bomba é aquela que ainda hoje existe, uma jóia do património histórico dos Bombeiros Voluntários de Mangualde.

O saudoso Lívio Laires Ferreira da Silva, afirmava que Alves Pereira foi o primeiro bombeiro de Mangualde.
-Sempre que era noticiado um incêndio, “Maçareco” partia de imediato com os seus empregados, ele à frente, montado numa bicicleta que ostentava uma chapa com as letras “BV”, referia ainda Lívio Laires.
Mangualde crescia e, no primeiro quartel do século era já a mais progressiva vila da Beira. Impunha-se pois que fosse dotada de uma Corporação de Bombeiros, devidamente organizada e equipada e que com mais eficácia pudesse acudir às solicitações de ajuda. O primeiro grito surgirá em 1 de Setembro de 1928, também no “Renascimento” em artigo rubricado por A.M. Ali, o articulista realça o crescente progresso da vila de Mangualde, que já dispõe de um Grupo Desportivo, de uma agremiação recreativa – O Grémio de Mangualde e de uma Banda de Música, mas não tem uma Corporação de Bombeiros. Apelava ao espírito empreendedor dos mangualdenses e lançava o repto: -Vamos organizar uma Corporação de Bombeiros!…

Os apelos foram-se repetindo e, em artigo de fundo do jornal “Renascimento” de 1 de Fevereiro de 1929, pela pena do então director e proprietário, Dr. José Henriques Pereira Júnior, volta de novo a reafirmar-se a necessidade de uma corporação de bombeiros. Porém, parece que não era fácil arrancar com a decisão da constituição da colectividade, fosse por carência de meios, ou mesmo pelas pessoas que então já estavam constituídas como um grupo de bombeiros. O Director do Renascimento diz mesmo: “Há por aí boas vontades, homens que têm mostrado o melhor empenho em favor desta nobre causa e que infelizmente não têm sido auxiliados nem compreendidos. Entre estes é justo que salientemos António Alves Pereira, entusiasta ferrenho, a quem muitos rejeitam o valor que merece. À sua custa, construiu ultimamente nas suas oficinas uma carreta com vário material de incêndios. Tem procurado por todos os meios fazer criar o entusiasmo por esta obra benemérita.” E o articulista termina: “Vamos portanto meter mãos à obra e que todos saibam compreender o valor desta nobre iniciativa”.

Finalmente, os apelos que vinham sendo feitos tiveram os seus frutos. A 15 de Fevereiro de 1929, é anunciada a constituição de uma Comissão Organizadora, cuja composição era a seguinte: Dr. Manuel Tavares, Dr. José Henriques Pereira Júnior, José Lopes da Conceição, Fernando Duarte Cabral, Sebastião Loureiro da Costa, Bernardo Fradique Beja e António de Albuquerque Azevedo. Propunha-se organizar um corpo de salvação pública, recorrendo aos conhecimentos de um técnico competente, que orientasse os primeiros passos. Um membro da Corporação dos Voluntários de Viseu e com largos conhecimentos na matéria, António Loureiro Nelas, ofereceu os seus préstimos e começou desde logo a cooperar com a comissão instaladora. Como primeira medida, procurou reunir, instruir e disciplinar os elementos que já haviam abraçado esta missão voluntariosa. Depois, e como meta imediata, a angariação da importância de quinze mil escudos, montante mínimo indispensável para os primeiros passos.

A primeira reunião de fundo, acontece no dia 18 de Fevereiro de 1929, numa das salas do Grémio de Mangualde (Clube). Os elementos da comissão congratularam-se com o registo de valiosas adesões à iniciativa, decidindo enviar circulares a diversas entidades. Para um andamento mais célere dos trabalhos, foi decidido constituir, dentro da comissão instaladora, uma comissão executiva que ficou a ser presidida pelo Dr. Manuel Tavares, tendo como secretário Sebastião Loureiro da Costa e António de Albuquerque Azevedo como vogal. António Loureiro Nelas, dos voluntários de Viseu, conjuntamente com António Albuquerque Azevedo e António Alves Pereira, faz uma inspecção e arrolamento do material existente e agendam os primeiros exercícios para 10 e 11 de Março de 1929, domingo e segunda-feira, respectivamente.

Constata-se pois, que a Comissão não só estava determinada em organizar a Corporação de Bombeiros, como também em garantir desde logo o seu engrandecimento e crescimento. Para já, era preciso dinheiro e é no “Renascimento” que se abre a subscrição pública. E a onda de solidariedade foi engrossando, com a organização de festas, torneios de tiro aos pratos e récitas teatrais. Só na vila de Mangualde, o primeiro peditório rendeu oito mil e quinhentos escudos..

Entretanto, estabilizara-se já o corpo activo que tinha como instrutor voluntarioso, António Loureiro Nelas. Eram estes na altura, os bravos soldados da paz: Fernando Duarte Lopes, Augusto Gomes, Arlindo Laires Ferreira da Silva, Albertino Laires Ferreira da Silva, José Henriques Pereira Júnior, Leonídio Nunes, José dos Santos Costa, Eugénio Casimiro Taborda, João Ferreira Manita, Graciano da Costa Ferrão, Ernesto Madeira, César Azadinho, Joaquim Costa, Arnaldo Pais Jorge, José de Abrantes, Marcelino Correia de Carvalho e José Pessoa. O comando foi confiado ao Dr. José Henriques Pereira Júnior e as funções de 2º comandante eram exercidas por Marcelino Correia de Carvalho. O material existente porém, embora fruto do empenhamento, espírito de solidariedade e iniciativa de António Alves Pereira “Maçareco”, era pobre e obsoleto. A palavra de ordem, tanto da direcção como daqueles que compunham o corpo activo, era trabalhar e redobrar esforços para engrandecer o nome da terra que, apesar do progresso que então experimentava, não tinha estruturado um corpo de bombeiros. A bomba manual então existente, embora fosse das melhores que ao tempo eram utilizadas, tornava-se pouco eficaz num incêndio de grandes dimensões. A primeira preocupação em termos de apetrechamento apontava pois para a aquisição de “bomba-motor” ou moto-bomba, com todos os acessórios necessários e um equipamento completo para 15 a 20 homens. O orçamento para a compra de tudo isto, segundo estudo de um “técnico competente” que supostamente terá sido o instrutor António Loureiro Nelas, situava-se entre 15 a 18 mil escudos. Era este pois, o objectivo a atingir. Havia portanto que renovar os apelos à generosidade dos mangualdenses e das entidades públicas. Os mangualdenses espalhados pelo país, ex-colónias e Brasil, iam fazendo chegar o fruto da sua generosidade. Da Administração do concelho vinha a importância de quinhentos e setenta e cinco escudos, proveniente de multas e a Câmara Municipal dava mostras da importância que representavam para o concelho os bombeiros, atribuindo o subsídio de dez mil escudos.

Nos princípios do mês de Junho de 1929, é feita uma reunião da comissão instaladora em casa do Sr. José Lopes da Conceição e, entre outros assuntos que nessa reunião foram tratados, foi decidida a aquisição da moto-bomba. Foi decidido também autorizar os bombeiros a mandarem fazer os seus fatos de serviço. Por esta altura, e por motivos de doença, a presença de António Alves Pereira “Maçareco” já era pouco frequente na Corporação. A 29 de Junho de 1929, a Corporação dos Bombeiros Voluntários de Mangualde apresenta-se pela primeira vez em público “devidamente organizada”. Eis, portanto a justificação para a celebração do aniversário a 29 de Junho, desfasado de datas de constituição ou fundação.

Constituída que estava já a Associação dos Bombeiros Voluntários de Mangualde, impunha-se eleger os primeiros corpos sociais, de conformidade com os estatutos. A assembleia teve lugar nos primeiros dias de Agosto no salão nobre do Grémio, tendo sido aberta pelo presidente da Comissão Executiva, Dr. Manuel Tavares, que convidou para presidir à sessão o Dr. Álvaro Soares de Melo que foi secretariado pelo Dr. Armando Campos e António de Albuquerque e Azevedo. A eleição foi por escrutínio secreto, tendo entrado na urna 27 boletins de voto que elegeram os corpos sociais, da forma que segue:

Direcção
Presidente: Dr. Manuel Tavares
Vice-Presidente: António de Albuquerque e Azevedo
1º Secretário: Sebastião Loureiro da Costa
2º Secretário: Francisco Cardoso Ramos
Tesoureiro: José Lopes da Conceição
Vogal: Aníbal Nunes Ferrão
Vogal-Comandante: José Henriques Pereira Júnior

Assembleia-geral
Presidente: Dr. Américo Pinto da Gama Leão
Vice-Presidente: Dr. Armando de Almeida Campos
1º Secretário: Adolfo Aires Loureiro
2º Secretário: António Monteiro de Albuquerque

Conselho Fiscal
Presidente: Fernando Duarte Cabral
Relator: António de Oliveira Gonçalves
Vogal: Bernardo Beja

 

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